Jovens europeus vivem com direitos do século 19

Por Tiago Vieira

 

Quatro meses após o grande sucesso do Festival Mundial da Juventude e dos Estudantes e às vésperas de uma reunião que será realizada entre os dias 17 e 20 de março, em Porto Alegre, para definir novos objetivos na luta contra o imperialismo, a União da Juventude Socialista (UJS) entrevistou o presidente da Federação Mundial da Juventude Democrática, o português Tiago Vieira.

Ele falou desde os desafios da FMJD para 2011 até os movimentos em prol da democracia no Oriente Médio, passando ainda pela avaliação da bem sucedida 17ª edição do festival, o papel do Brasil na correlação de forças políticas mundiais e a dura realidade dos jovens europeus.

UJS: A FMJD realizou na África do Sul, entre os dias 17 e 21 de dezembro, o seu 17º Festival Mundial. Qual sua avaliação do encontro e quais foram os encaminhamentos tirados pela federação?
Tiago Vieira: Esse festival foi altamente positivo, dado que se realizou pela primeira vez no continente africano e que, mesmo com apenas nove meses de preparação, nenhum dos objetivos que tínhamos colocado para a mobilização (que atingiu 15 mil jovens de 126 países) ou de discussão política (marcadamente anti-imperialista) foi prejudicado por isso. Mais a mais, o FMJE na África do Sul permitiu o reforço da FMJD, sobretudo na África, mas também em muitos outros países por meio dos Comitês Nacionais Preparatórios, formados por cada um dos membros da FMJD nos diferentes. Além disso, o evento permitiu à FMJD um contato habitualmente difícil de ser feito. O caráter de massas e anti-imperialista do FMJE ficou reafirmado e a necessidade e vontade dos jovens do mundo de derrotar o imperialismo se reforçou.

UJS: Quais são os principais desafios de 2011 para a FMJD?
TV: O ano de 2011 será o ano da 18ª Assembleia da FMJD. Este ano será, sobretudo, dedicado à preparação desta reunião magna dos membros da Federação para eleição da nova direção e atualização da análise e perspectivas da FMJD, tanto da situação política da juventude como das medidas necessárias para o combate ao imperialismo e reforço da entidade. O fato de saírmos do FMJE mesmo em dezembro pode ser visto como complexo, já que muitas organizações se esforçaram muito para o Festival e terão agora mais dificuldades em continuar num ritmo intenso. No entanto, na FMJD não vemos isso como um problema, mas como um desafio portador de inúmeras vantagens. A preparação do Festival permitiu esse fortalecimento citado anteriormente e, por isso, o que temos é de agarrar o que de bom se conseguiu para potencializar tudo isso numa grande assembleia e num ano de muitas lutas e atividade. Dos sinais que vemos, penso que iremos conseguir, mas claro que ainda temos muito trabalho pela frente se quisermos cumprir estes objetivos.

UJS: Fale um pouco sobre a situação da juventude na Europa, que tem sido muita atacada em seus direitos, como consequência da grave crise econômica que passam diversos país.
TV: Os jovens europeus enfrentam a maior ofensiva que já viveram em muito tempo. Em larga escala, não é exagero dizer que essa geração de trabalhadores e jovens do século 21 vive com direitos do século 19. A negação dos mais básicos direitos, a precariedade, o desemprego, a impossibilidade de emancipação pela incerteza do dia de amanhã, o endividamento e até as barreiras à liberdade de associação são alguns dos elementos centrais da vida do jovem europeu comum. É uma situação alarmante, e os governos dos países da União Europeia não estão, a cada dia, mais e mais empenhados em fazer de cada trabalhador um novo escravo, que viva com contratos de uma hora, sem direitos, apenas para ser explorado e encher os bolsos dos senhores dos grandes grupos econômicos. Na Europa, a crise justifica tudo, mas na realidade os lucros das grandes empresas continuam a aumentar a patamares escandalosos, enquanto aos trabalhadores e aos jovens se pede sacrifícios. Mas para quê? Para servir a quem? Precisamente para elevar ainda mais a exploração e formar uma geração sem consciência de tudo a que tem direito.

UJS: Qual é a sua avaliação sobre as recentes revoltas no Oriente Médio e como essas revoltas podem alterar a correlação de forças no mundo?
TV: O processo vivido no Médio Oriente é interessantíssimo e multifacetado. Só o tempo dirá o que vai acontecer em cada um destes países, mas uma coisa é certa: os processos do Egito e da Tunísia (independentemente de como venham a terminar) já mostraram aos povos do mundo, em geral, e da região, em particular, que depende apenas de um povo a sua libertação – mesmo que seja difícil, mesmo que leve anos a se consumar, como estão sentindo na pele os povos do Bahrain e do Iêmen. A se concretizarem como revoluções populares e democráticas, esses processos trarão ao mundo uma maior força no combate ao imperialismo, em geral, e aos Estados Unidos e Israel, em particular. Mas não se pense que vai ser fácil, porque nem bem o povo do Egito celebrava a vitória sobre Mubarak e a Otan estacionava suas tropas em volta do país. Mais a mais, a atual situação da Líbia que Otan e outras estruturas estão a ponto de atacar revela que o imperialismo não dorme e que se essa intervenção externa obtiver êxito, esse país poderá ser transformado em mais um complexo militar gigante dos EUA e do imperialismo. Eles usam a retórica dos direitos humanos, a mesma que levou à invasão da Iugoslávia, do Afeganistão e do Iraque – todos casos em que os pretextos eram falsos e cujas consequências para os povos locais são vistas no número de mortos que ainda hoje aumenta diariamente. Se os que agora se manifestam em torno dos direitos humanos do povo líbio tivessem uma preocupação honesta, há muito teriam feito para cessar as atrocidades na Palestina, na Colômbia ou mesmo no Bahrain, Iêmen ou Arábia Saudita.

UJS: E o papel que tem desempenhado a juventude nos países árabes? Há movimentos de juventude organizados participando dessas revoltas?
TV: Do que conhecemos pela FMJD, podemos dizer que os jovens têm tido um papel bastante ativo e preponderante nas movimentações. É de registrar que destacados ativistas do Egito e do Bahrain são membros das organizações membro da FMJD naqueles países e alguns foram delegados no Festival da África do Sul.

UJS: Como você avalia a atuação da juventude brasileira no combate ao imperialismo e os posicionamentos do próprio governo brasileiro no cenário internacional?
TV: Do que conheço a juventude brasileira tem uma conduta de grande valor no combate ao imperialismo. A sua ação organizada em expressões partidárias, sindicais e estudantis são exemplos de grandes mobilizações de massas que inspiram camaradas em todo o mundo. Os valores da luta anti-imperialista ficaram bem expressos também no festival, em que uma ampla e variada delegação mostrou ao mundo como, além de uma alegria única e inconfundível, a juventude brasileira tem a capacidade de, independentemente das diferenças, se unir no combate ao imperialismo. Essa luta tem expressão também no nível governamental e são bem conhecidos os passos dados em direção ao fortalecimento da luta anti-imperialista, particularmente com a contribuição para a integração de toda a América Latina, por um futuro de liberdade, soberania e solidariedade para todos os povos.

UJS: A FMJD realizará uma reunião entre os dias 17 a 20 de março, em Porto Alegre. Quais são os objetivos dessa reunião?
TV: A reunião visa, essencialmente, permitir aos membros da FMJD fazer uma avaliação coletiva do Festival da África do Sul, assim como marcar a data, lugar e objetivos políticos da Assembleia da FMJD. A par disso, como sempre acontece, haverá uma intensa troca de experiências sobre as lutas desenvolvidas por cada organização, assim como a busca de uma melhor coordenação nas atividades comuns que desenvolveremos na nossa luta contra o imperialismo.

Fonte: Portal da UJS



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